Vermelho

Eu abri os meus olhos depois de uma longa noite de sono e tudo o que eu vi foi vermelho.

Senti que estava em um lugar que não conhecia, perdida, e nem sequer sabia como tinha parado ali. Sentei, procurei me acalmar e chorei. Depois de muitas horas de choro, eu entendi que tinha que fazer alguma coisa para sair daquela situação, cedo ou tarde sentiria fome, sede, eu precisava arrumar uma solução.
Me levantei, me recompus e comecei a andar por entre a vermelhidão tentando compreender aquilo. Não consegui entender, obviamente, e mais uma vez perdi o controle, chorei muito, senti medo, me senti só, queria gritar, bati na parede vermelha como se quisesse quebra-la, nada adiantou. Eu estava confusa, não sabia se esse vermelho era externo ou era algum problema com minha visão, foi quando comecei  a me analisar e tentar traçar um caminho retrogrado até achar em que ponto da minha vida eu tinha ido para aquele lugar, ou ficado naquela situação; se soubesse como tinha chegado ali, muito provavelmente eu saberia como iria sair. Me analisei, identifiquei várias pistas de como possivelmente eu teria chegado ali mas nada concreto. Cansei, acabei pegando no sono.
Acordei, e tudo parecia estar normal, colorido. Então aquilo tudo foi um sonho? Não sei. Vivi aquele dia normalmente e os dias que se seguiram depois daquele também. Até o dia em que eu encontrei novamente no vermelho. O mesmo desespero, o mesmo terror, a mesma confusão. Cheguei a pensar que o vermelho estava vivo, se mexendo a minha volta. Mas dessa vez eu consegui resolver o problema mais rápido. Me lembrei da ultima vez, vi que se eu tentasse refazer meus passos de frente pra trás de alguma maneira aquilo me levaria de volta. E assim fiz. E assim aconteceu, eu por algum motivo dormi no meio do processo e quando acordei, colorido.
Nos dias seguintes, vez ou outra eu acabava indo de novo pra o vermelho, e cada vez que isso acontecia o desespero e o medo iam sendo substituídos pelo conformismo, eu estava me acostumando a ir para aquele lugar que agora já tinha certeza que estava vivo, e me cercava inclusive nos dias coloridos. Nas minhas sessões de analise me lembrei que há anos atrás eu vivi algo parecido, mas em vez de ir pra um lugar vermelho, eu ia para um lugar sem cor, este era mais estável, quando entrei fiquei muito tempo lá e quando conseguir voltar ao colorido nunca mais retornei. O vermelho até lembrava o lugar sem cor, mas era mais diferente; o lugar sem cor estava morto.
Aquilo de fato tinha virado cotidiano. Eu não sabia ou porquê, nem o que significava, mas sempre, quase todo dia, nem que fosse por alguns minutos, eu aparecia no ambiente vermelho. Parei de procurar entender a razão daquilo tudo. O vermelho agora fazia parte da minha vida, parte de mim. E nem por isso eu me sentia menos confusa, mais segura ou entendida; muito pelo contrário, eu estava perdida no vermelho, estava perdida em mim mesma.

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